Nove anos depois do sucesso nos cinemas de A outra face (1997) - clássico de John Woo em que dois inimigos trocam de rosto por meio de uma técnica revolucionária -, o primeiro transplante completo de face está prestes a ser realizado. O comitê de ética do Royal Free Hospital, em Londres, autorizou ontem (25) a equipe do cirurgião Peter Butler a realizar esse tipo de operação. A previsão é de que, em um ano, quatro pacientes sejam submetidos ao transplante.
A instituição de ensino de cirurgiões Royal College of Surgeons (RCS) criticou a rapidez da decisão, em nota divulgada pelo jornal The Guardian. "A universidade ainda tem sérias restrições e preocupações acerca do transplante de face. Buscaremos assegurar que os requerimentos mínimos para esse tipo de operação sejam atendidos", informa o comunicado. Com a notícia, especialistas, familiares de pessoas com rostos desfigurados e organizações não-governamentais retomaram a polêmica sobre a nova técnica.
Mas o cirurgião Peter Butler não se intimidou. "Agora, começaremos a avaliar pacientes que desejam se submeter ao transplante e, em seguida, selecionaremos quatro", afirmou. Butler, que pesquisa o tema há anos, assegurou que as avaliações e procedimentos anteriores à cirurgia serão muito cautelosos.
Dois transplantes semelhantes já foram feitos, mas em ambos os casos os pacientes receberam apenas partes dos rostos dos doadores. A primeira foi a francesa de 38 anos Isabelle Dinoire, que ganhou no ano passado novos lábios, nariz e queixo no hospital universitário de Amiens. Em abril deste ano, o chinês Li Guoxing se submeteu a uma operação de 14 horas no hospital de Xijing e recebeu uma bochecha, um lábio superior e um nariz.
Ética
Desde que os médicos franceses fizeram a cirurgia em Isabelle Dinoire, a técnica é objeto de um profundo debate ético. As principais questões giram em torno do impacto psicológico no paciente e na família do doador. Experiências anteriores de cirurgias em outras partes do corpo evidenciam os riscos: o paciente que recebeu o primeiro transplante de mão voltou atrás e pediu que o órgão fosse removido. O mesmo aconteceu com o chinês que se submeteu, em 2005, a um inédito transplante de pênis.
Se a polêmica for superada, os médicos do Royal Free Hospital se dividirão em dois grupos para realizar a operação. Uma primeira equipe de médicos removerá a pele da face do paciente, enquanto um segundo time retirará a pele do rosto do doador. A face será mantida a temperaturas baixíssimas até o momento do transplante. Cerca de 12 horas depois do início da cirurgia, o paciente terá, enfim, um novo rosto.
Fonte: Correio Braziliense
26/10/2006