Primeiro, os casos de asma aumentaram, ao lado da febre de feno, uma espécie de rinite, e de outras reações alérgicas, como o eczema. Então os pediatras começaram a encontrar mais crianças com alergias alimentares. Agora, os especialistas estão cada vez mais convencidos de que um possível aumento dos casos de lúpus, esclerose múltipla e outros males causados por sistemas imunológicos falhos é real.
Embora os dados de algumas doenças sejam mais substanciais do que os de outras e parte do aumento possa refletir diagnóstico melhor, especialistas estimam que a incidência de muitas alergias e doenças do sistema imunológico dobrou, triplicou ou até mesmo quadruplicou nas últimas décadas, dependendo do problema e do país. Estudos indicam que mais da metade da população dos Estados Unidos sofre de pelo menos um tipo de alergia.
A causa continua no centro de intensos debates e estudos, mas alguns pesquisadores suspeitam que as tendências concomitantes tenham uma explicação em comum, ligada a aspectos da vida moderna - entre eles a "hipótese da higiene", que aponta o crescimento das pessoas em casas cada vez mais assépticas, mudanças na dieta, a poluição do ar e, possivelmente, até mesmo a obesidade e estilos de vida sedentário.
"Mudamos nossas vidas dramaticamente nos últimos 50 anos", disse Fernando Martinez, pesquisador de alergias na Universidade do Arizona. "Estamos expostos a mais produtos. Pessoas vindas de contextos diferentes são expostas a ambientes diferentes. Tornamos nossas vidas mais assépticas, especialmente na primeira infância. Como resultado, nosso sistema imunológico pode se desenvolver de modo diferente. E podemos pagar um preço por isso."
Além da série de pesquisas destinadas a confirmar e explicar as tendências, os cientistas começaram a testar possíveis remédios. Alguns estão dando a crianças vulneráveis quantidades gradualmente maiores de alimentos que provocam alergia, esperando educar o sistema imunológico para que não reaja com exagero.
Outros testam bactérias ou partes de bactérias benignas. Há ainda os que fazem pacientes com esclerose múltipla, colite e doenças similares ingerir parasitas inofensivos para tentar acalmar as defesas desorientadas dos corpos.
"Observando a incidência dessas doenças, vemos que muitas começaram a surgir e se tornaram muito mais comuns depois que males causados por parasitas foram eliminados do ambiente", disse Robert Summers, da Universidade de Iowa, que faz estudos com parasitas do intestino humano. "Acreditamos que eles têm profundo efeito simbiótico no desenvolvimento e na manutenção do sistema imunológico."
Embora a febre de feno, a asma e as alergias a alimentos pareçam diferentes, são todas "doenças alérgicas", pois são causadas pelo sistema imunológico que responde a substâncias normalmente benignas, como pólen e amendoim. Doenças auto-imunes também resultam do mau funcionamento de mecanismos de defesa do corpo.
Mas nessas doenças, que incluem lúpus, esclerose múltipla e diabetes tipo 1, o sistema imunológico ataca partes do corpo como nervos, pâncreas ou aparelho digestivo. "Em geral, resta pouca dúvida de que houve aumentos significativos", afirmou Syed Hasan Arshad, especialista em alergias alimentares do Centro David Hide de Asma e Alergia, na Inglaterra. "Podemos chamar isso de epidemia. Falamos em milhões de pessoas e implicações enormes tanto para os custos de saúde como para a qualidade de vida. Se continuar aumentando, onde vai parar?"
Uma razão pela qual muitos pesquisadores suspeitam da responsabilidade do estilo de vida moderno é que os aumentos ocorrem principalmente em países altamente desenvolvidos da Europa e América do Norte.
Segundo a principal teoria sobre o fenômeno, quando a medicina moderna derrota doenças causadas por bactérias, vírus e parasitas que atormentaram a humanidade por muito tempo, os sistemas imunológicos podem não conseguir aprender como distinguir ameaças reais de invasores benignos. Ou talvez por não estar ocupados combatendo ameaças reais, eles reajam excessivamente ou se voltem contra os próprios tecidos do corpo.
Fonte: Estado de São Paulo